Amamentação em TANDEM – parte 01

Esse é mais um dos pontos em que obstetras pensam de forma diferente que os pediatras e que pediatras pensam diferente de outros pediatras. Vamos analisar as questões e entender as razões da dificuldade de um consenso nessa situação.

A recomendação que todos conhecem (ou pelo menos deveriam conhecer) 

OMS, Ministério da Saúde, SBP recomendam e divulgam, já há tempo suficiente e cada vez com mais comprovações de benefícios (meu mantra de novo… rsrs):

– ALEITAMENTO MATERNO DESDE A PRIMEIRA HORA DE VIDA;

– ALEITAMENTO MATERNO EXCLUSIVO E EM LIVRE-DEMANDA ATÉ O 6º MÊS;

– ALEITAMENTO MATERNO ESTENDIDO ATÉ 2 ANOS OU MAIS.

Estudos comprovam vantagens para as mães (redução de volume uterino, prevenção de câncer de mama, maior chance de diminuição de peso, dentre outros), para os bebês (formação de flora intestinal favorável, prevenção de obesidade infantil, de alergia alimentar, de doenças respiratórias e infecciosas, entre outras) e para o vínculo (maior início de AME, maior duração do AM, crianças com menos cólicas, mais seguras, entre outras questões).

Mesmo assim, o que conseguimos segundo as últimas estatísticas ainda é:

– Prevalência de AME de 54 dias;

– AME no 6º mês – 41%;

– Mediana de AM – 11 meses e meio.

Segundo estudos, muitos são os fatores responsáveis por esses índices tão aquém das recomendações:

– Falta de orientação no pré-natal;

– Início de oferta de fórmula infantil e em mamadeira já na maternidade;

– Falta de orientação dos pediatras durante as consultas de puericultura;

– Licença-maternidade de 180 dias não é lei com volta ao trabalho com 120 dias;

– Falta de condições de retirada e armazenamento de leite materno no trabalho;

– Creches que NÃO ACEITAM receber leite materno das mães para os seus filhos;

– Falta de estímulo da mídia, do governo, da sociedade de forma geral ao AM.

E essa lista é imensa, muito maior, mas acho que já é possível perceber o panorama do aleitamento materno no Brasil.

Segunda gravidez: suspender a amamentação do primeiro filho? 

Essa é uma questão que divide os profissionais e inclusive os pais. A idade do primeiro filho no início da gestação é um dado levado em conta pelos pais. Se for um lactente (até um ano de idade) a dúvida é muito maior. Se o bebê já tem um ano ou mais, a opção mais “lógica” é desmamar para que ele não se sinta excluído antes de o irmãozinho mais novo nascer.

Quer dizer que quando se suspende o AM na gestação será mais “fácil” e “menos sofrido” para esse bebê? Quem disse isso? De onde se tirou essa ideia?

A maioria dos obstetras se coloca claramente favorável à suspensão do AM assim que se faz o diagnóstico da gravidez. Algumas justificativas para essa atitude passam pela dinâmica endocrinológica desse período e dois são os principais “hormônios responsáveis” para essa decisão: OCITOCINA e PROLACTINA.

Ocitocina

Esse é um hormônio que é liberado através da sucção da mama e que pode promover contrações uterinas (fator interessante no pós-parto para a regressão do útero ao seu tamanho normal de forma mais rápida e natural).

Desde o início da gestação, o útero apresenta contrações imperceptíveis e pesquisas sugerem que até a 24ª semana de gestação o útero não é sensível à estimulação da ocitocina.

As preocupações em relação a abortamento por conta da amamentação durante a gestação não têm uma fundamentação a não ser em algumas poucas situações. 16 a 30% das gestações podem cursar com abortamentos espontâneos, assim, algumas vezes, eles podem ocorrer durante a fase de aleitamento, sem que essa seja a causa.

Prolactina

É um hormônio produzido pela hipófise e que aumenta muito, fisiologicamente, na gestação (10 a 20 vezes seu valor normal) para favorecer a produção de leite (estrógeno e progesterona são os hormônios responsáveis pela não saída do leite estimulado pela prolactina).

Além disso, enquanto a mãe amamenta esse hormônio permanece em nível elevado.

Segundo publicações, “O desenvolvimento mamário inicial ocorre sob a influência tanto dos estrogênios (sistema ductal) quanto dos progestagênios (sistema lobuloalveolar). As principais ações da prolactina sobre o tecido mamário são a lactogênese e a lactopoese, e, durante a gestação, a elevação das taxas de prolactina sérica é progressiva até o termo, podendo atingir níveis 10 a 20 vezes superiores aos encontrados na mulher não-grávida. Entretanto, seu efeito na gravidez está diretamente relacionado ao aumento das taxas de estrogênio, uma vez que este irá determinar hipertrofia e hiperplasia dos lactótrofos”.

Quando o bebê nasce e caem os níveis de estrogênio e progesterona, pode ocorrer a saída do leite pelos brotos mamários do bebê (conhecido como “leite de bruxa”), pelo estímulo da prolactina, de forma transitória (2 a 3 semanas). Não se deve apertar o broto mamário dos bebês para saída desse leite sob o risco de infecção importante. Sempre converse com o pediatra nessa situação.

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4 comentários sobre “Amamentação em TANDEM – parte 01

  1. Livia disse:

    Dr. Sou médica clinica geral e amamento minha filha de um ano. Quero engravidar novamente e continuar amamentando. Estou buscando respaldo científico e publicações a respeito para me informar melhor sobre riscos/benefícios. Você teria algo para me indicar por favor? Obrigada

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    • Doutor Moises Chencinski disse:

      Livia, no texto existem links a respeito de publicações sobre o tema. Você chegou a ver?

      Nos textos sobre aleitamento (livros: Manual Prático de Aleitamento Materno – Dr. Carlos González; Manual de Aleitamento Materno – do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria; Como e porque amamentar – Dr. José Martins Filho e Simone de Carvalho; Filhos da gravidez aos 2 anos de idade – dos pediatras da SBP para os pais) você encontra sempre a mesma informação:

      NÃO PRECISA PARAR DE AMAMENTAR AO ENGRAVIDAR.

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  2. Carolina disse:

    Bom dia Doutor.
    Minha filha tem 2 anos e meio e me descobri gravida do terceiro. Ela mama praticamente o dia inteiro… Gostaria de saber se tenho que desmamar pois escuto muita gente falando que dá contrações uterinas e posso vir a perder meu bebê. Estou perdida sem saber o que fazer pois minha filha é um grude comigo e não quero fazer isso com ela. Obrigada…

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    • Doutor Moises Chencinski disse:

      Carolina, a recomendação da OMS, da Sociedade Brasileira de Pediatria é manter o aleitamento, a não ser em risco importante de abortamento o ou em caso de alguma outra contraindicação absoluta. Amamentação em TANDEM é uma prática ainda pouco conhecida por profissionais de saúde, mas muito divulgada entre as mães e o meio pediátrico.

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