2014: vamos “viralizar” o aleitamento materno?

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Uma frase atribuída, segundo a maioria das citações a Jean Cocteau, mas também com referência a Mark Twain (They did not know it was impossible, so they did it), pode ser um bom ponto de partida para essa nossa reflexão de final de ano, no que diz respeito ao aleitamento materno.

De uma forma ou de outra, um dos grandes (ir)responsáveis pela nossa taxa de aleitamento materno aqui no Brasil é a (des)informação a respeito do tema.

Parece que os esforços realizados para que essa meta não seja atingida, nem de perto, ainda são predominantes e povoam a Internet e a mídia  tradicional, impedindo que se ofereça a todos o acesso livre e democrático ao melhor, mais eficaz, mais completo e mais precoce cuidado com a saúde das crianças: O ALEITAMENTO MATERNO DESDE A PRIMEIRA HORA DE VIDA, EXCLUSIVO E EM LIVRE-DEMANDA ATÉ O SEXTO MÊS, ESTENDIDO ATÉ 2 ANOS DE IDADE OU MAIS.

Historicamente, em passado muito distante (antigo Egito, por exemplo, há mais de 3500 anos), essa era a orientação de aleitamento. Por volta do século XVIII, esse hábito passou para as amas-de-leite e no século 19, a alimentação dos bebês, que era essencialmente o leite materno, passou para o leite de vaca pela (des)informação de que havia mais proteínas no leite de vaca do que no leite materno.

Só se “esqueceram” de associar essa quantidade à necessidade própria da espécie. Vivemos em uma época orientada pela informação de que “mais é melhor” e “antes é melhor”. Assim se criou a imagem de que se o bebê comer antes, se ele comer mais, se crescer mais, se ganhar mais peso, se seu desenvolvimento for mais precoce, se a criança andar antes, se suas fraldas forem retiradas antes, teremos um adulto mais bem sucedido e mais preparado para “vencer” na vida.

Não devemos fechar os olhos aos benefícios da evolução da tecnologia, dos conhecimentos, mas também não podemos cobrir com a peneira o sol de resultados não favoráveis dessas atitudes: estamos morrendo mais tarde, porém com muito menor qualidade de vida, tomando muito mais remédios, com efeitos colaterais de alto risco, para que possamos recuperar um estado mínimo de saúde.

Temos que pensar na terceira idade desde o pré-nupcial, passando pelo pré-natal e pelos cuidados de puericultura durante a primeira infância. E não há como passar por tudo isso, sem ter uma forte base no aleitamento materno. E só vamos conseguir disseminar essa atitude através da informação, da boa informação e da informação ética.

O novo Código de Ética Médica, publicado no Diário Oficial da União em 13 de outubro de 2009, já no seu Capítulo I, sobre os Princípios Fundamentais, informa que:

II – O alvo de toda a atenção do médico  é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional.

V – Compete ao médico aprimorar continuamente seus conhecimentos e usar o melhor do progresso científico em benefício do paciente.

XIV – O médico empenhar-se-á em melhorar os padrões dos serviços médicos e em assumir sua responsabilidade em relação à saúde pública, à educação sanitária e à legislação referente à saúde.

XVIII – O médico terá, para com os colegas, respeito, consideração e solidariedade, sem se eximir de denunciar atos que contrariem os postulados éticos.

XXIII – Quando envolvido na produção de conhecimento científico, o médico agirá com isenção e independência, visando ao maior benefício para os pacientes e a sociedade.

No Capítulo 3, que trata das Responsabilidade Profissional, seguem as indicações:

É vedado ao médico

Art. 1º Causar dano ao paciente, por ação ou omissão, caracterizável como imperícia, imprudência ou negligência.

Art. 20. Permitir que interesses pecuniários, políticos, religiosos ou de quaisquer outras ordens, do seu empregador ou superior hierárquico ou do financiador público ou privado da assistência à saúde interfiram na escolha dos melhores meios de prevenção, diagnóstico ou tratamento disponíveis e cientificamente reconhecidos no interesse da saúde do paciente ou da sociedade.

Assim, pelo menos em função da ética, não deveria haver como não estimular o aleitamento materno. Tantas perguntas sem respostas. Será que podemos ter esperanças para 2014?

  • Qual a razão para que tenhamos que lutar para que as mães possam amamentar livremente, em qualquer lugar, sem sofrer qualquer tipo de discriminação?;
  • Qual a razão para que as mães não sejam informadas e esclarecidas desde o seu pré-natal sobre os benefícios do aleitamento materno?;
  • Qual a razão para ainda termos pediatras que não estimulem o aleitamento materno?;
  • Qual a razão para ainda termos a imensa maioria das maternidades do País estimulando a utilização de chupetas, mamadeiras e fórmulas infantis, em detrimento da informação e do apoio adequados ao aleitamento materno?;
  • Qual a razão para que ainda não esteja determinada por lei a licença-maternidade de 180 dias, não como um direito trabalhista, mas como uma indicação médica de práticas de proteção à saúde da criança?

A “luta” não é de hoje, mas ainda temos muito trabalho pela frente. Vamos transformar 2014 em (mais) um ano de alerta em prol dos benefícios e da “viralização” do aleitamento materno.

Se cada um de nós (pediatras conscientes) influenciar pelo menos mais uma mãe e se cada mãe conseguir “ganhar” pelo menos mais uma outra mãe para a causa do aleitamento materno, em 2014, teremos triplicado a nossa estatística atual, não é mesmo?

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